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DEZ'13
Feat. Ble
Writers Bench #6
Em tempos mais baixos de produtividade, existem sempre os que mantêm uma linha de acção, os que descansam mas não deixam de controlar spots, os que pausam mas nunca deixam de pintar. 

Estivemos à conversa com Ble, um prodígio do Graffiti português, elevou o nível do graffiti, não só em termos técnicos e style, como o nível de sabedoria em conseguir pintar os spots mais arriscados.
 
Amado por alguns, odiado por outros, o certo é que muitos anos já passaram, e continua vivo e bem activo, em todas as superfícies.

Enquanto uns dormiram ele continuou à espreita, e enquanto alguns param ele continua aí.


Simples e directo, onde começou esta aventura do Graffiti?
 Atrás dos balneários de Educação Fisica, foi no início do 6o ano
 
Qual é o significado de Ble?
 Tem muitos, "Blue Line Entertainment",  "Bringin Love Everywhere" ou unstopaBLE!
 
Quais foram as tuas maiores dificuldades quando começaste a pintar?
 No início foi sem dúvida o facto de viver no fim do mundo, nao morava em Lisboa, demorava de minha casa cerca de meia hora a pé até a paragem de bus mais próxima, que por sua vez demorava 45 minutos a chegar á estação de comboio mais próxima, que era no fim de uma das linhas suburbanas de Lisboa.  
 
Mesmo com essas dificuldades todas, conseguiste manter-te e continuar assíduo. Qual foi a chave para te manteres "vivo" na altura, e nos tempos que correm?
Na altura, era activo porque era puto, e como todos os putos tens uma motivação extra. Tudo é um mundo novo a explorar, eu gosto de explorar, exprimentar, testar, e tinha tempo para fazer tudo o que me apetecia. Hoje ainda pinto sim, não com a mesma regularidade doentia, por falta de tempo, mas acho que o facto de nunca ter sido apanhado é o que me mantém motivado para continuar.
 
Tu és como um all city, um writer de várias frentes, com o nome por toda a cidade, o que te dá mais prazer em pintar? 
 Apesar do Sub continuar a ser a cereja no topo do bolo, é por fases e noias, às vezes tou numa de roladas, outras vezes numa de Sintras, outras vezes de Cascais, e há dois motivos importantes para isto. Primeiro, porque se fizermos sempre a mesma merda, seja subs, street ou whatever, tudo se torna monótomo, é sempre a mesma coisa, é aborrecido. Segundo, há sempre fezadas e spots que tão a render mais em determinada altura, e quanto a mim é estúpido não aproveitar e fazer boas cenas. Hoje em dia deixo  o meu hobbie fluir conforme as facilidades que há por ai, sem stress.
 
Qual é o trabalho de casa de um bom writer que pinte material circulante?
 Não ser inconsciente, não substimar o sistema, não querer ser famoso nem ganancioso.
 
Qualquer um pode chegar e tornar-se no que tu és hoje em dia?
 Claro que sim, espero ver muitos da nova escola irem mais além. Hoje há mais facilidades, não me venham com a conversa que no nosso tempo era mais fácil de pintar porque isso é conversa do cú pra piça. Sempre houve cenas de borla e cenas mais dificeis, hoje são diferentes, mas não significa que seja pior, é simplesmente diferente.
 
Qual era a diferença entre pintar quando começaste e agora?
Era de facto muito diferente. Não se falava dos spots, não havia informação online, e sim havia respeito pelos spots destes e daqueles. Se querias pintar um comboio, e digo um, não digo encher o book de lixo antes d aprenderes a pintar, procuravas uma missão que os cabecilhas do momento não fizessem para não incomodar ninguém. Hoje se disseres que um spot tem donos só se for para rir, já era.
 
O que sentes depois de pintar um metro ou um comboio? É gratificante?
Sinceramente, só é gratificante se fizer uma coisa especial, estilos, cores, bonecos e tamanho. De resto tornou-se uma coisa banal. 
 
Como é óbvio na vida de um writer, viajar é sempre tarefa obrigatória, que modelos tens, e que modelos gostarias mais de ter?
Tenho a maior parte dos que queria, faltam-me alguns cromos de fora da europa que vou fazendo quando tenho oportunidade, o único que desejo mesmo é Caracas, the rainbow metro. 
 
Achas que ainda falta muito para concluires os modelos que te faltam? Achas que os vais pintar?
Epá, é uma caderneta sem fim, mas eu já caguei na colecção. Não gosto do espirito de colecionar systems. Muitos dreds das viagens limitam-se a fazer uma cagada em cada cidade e dizer da boca pra fora "tenho 30, 40, 50 sistemas " o que para mim é a mesma coisa que espetares centenas de gajas feias, e nem conseguires fazê-las virem-se, no fim dizes "ya ja comi bueda gajas". Moral da história, ya vou pintar os que mais gosto quando tiver oportunidade.
 
O que é um system boy? Consideras-te um?
System boy é uma moda, sou um viciado em sub, mas não sou um system boy, não os conto, não coleciono, pinto apenas.
 
É uma praga que assombra todo o mundo. Qual é a tua opinião?
Não é uma praga, é uma moda, como todas as modas há de passar. Cada um faz o que quer, que sejamos todos felizes, mas eu não entro nessa merda. O jogo de interesses, os contactos, as expressões clássicas, os camones de merda que me batem nas costas e me pagam jantares a espera duma missãozinha á grande em Lisboa, deixós andar...

Como consideras o teu estado de actividade neste momento?
 
Nem me considero activo, estou longe da minha performance média alta. Pinto quando tenho tempo e quando o bicho ferra mais fundo.

Sentes um final perto, ou ainda há muita chapa para pintar?
Não há final, eu já não vivo graff, mas é o meu entretém como quem vai beber um copo com os amigos.
 
Sentes saudades do inicio?
Do inicio não, mas sinto alguma nostalgia em relação aos anos de ouro, quando os meus putos ainda aí andavam e vivíamos mais folgados, dedicados aos moves. 
 
Sabedoria para os mais novos e os que nunca pararam.
Sempre a aprender!
 
Props?
Special props 315 e 3d. Props pos meus putos que tão lá fora a fazer-se a vida, Kea, Saor. 
De resto para o people que pinta connosco, que nos respeita, para os que são reais e que ajudam a manter, sem interesses. Linha de sintra, Dzer, Fanhã, os que já foram que descansem. Props para os dragões lá de cima, Onym, Eler, Ubre, Runs etc... Para o Metor e os putos do catuja. E pela Europa fora, para todos os que nos tratam bem sem interesses.

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