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22
NOV'13
Feat. Obey
Back in the days #1
Hoje inauguramos o Back in the days, onde, de tempos a tempos, entrevistamos um writer que fez história. A nossa ideia é recordar, motivar e educar, a velha e a nova escola. 

Não é um trabalho fácil, e por isso, o nosso primeiro convidado tinha de ser um writer que tivesse acompanhado o nascimento e crescimento do graff em Portugal. O nosso primeiro convidado só podia ser o Obey.

Sem dúvidas o grande pilar do graffiti português, responsável, por um grande número de writers, ainda hoje activos.

Também um dos responsáveis pela época dourada do graff português, influenciando através do estilo e actividade nas ruas, e acima de tudo, com a sua atitude como writer.
 
Os tempos eram outros, os meios eram poucos, mas mesmo assim chegou-se longe.
Conta-nos um pouco dessa história, e claro o teu início, nesta longa caminhada.
Vindo de um passado de Skater e Metaleiro á muito que a arte do desenho me tinha conquistado, após essas fases, escolhi o Graffiti para canalizar toda a minha arte e criatividade.

Em 1992 , conheci o WiZe que partilhava a mesma motivação para pintar que eu, juntos criámos o crew PRM, juntaram se a nós o Youth, Exas e Mosaik. Rápido percebemos que a nossa missão era instalar esta arte definitivamente na nossa cidade e no nosso país. Apesar de já haver algum Graffiti em Carcavelos (de onde eles eram oriundos), tornou-se num compromisso entre nós, levar o graff para as linhas e a cidade, espalhar o graffiti pelo país, tal como é suposto fazer-se com esta arte.


Eram poucos mas eram reais, correcto?
Correcto, eramos todos B-boys e a nossa inspiração eram as raízes do Graff, NYC, e os pioneiros Europeus .
Todos mudámos as nossas vidas, e a nossa dedicação era completa, com grande respeito á cultura, sem ligar a proveitos próprios.

Durante essa longa caminhada vem Obey.Fala-nos um pouco sobre esse caminho.
Mudava de tag cada vez que mudava de objetivos, já tinha tido uns 4 tags antes de OBEY que serviram outros propósitos. Obey começou ao fechar-se um ciclo, a missão com esse alter ego era ser um writer completo e livre, bombing, trains, hall of fame, tudo illegal, sem pedir permissão a ninguém para nada, nessa altura nasceu também o crew, SkTr.

Nos tempos de Obey, diria que já teriamos presente uma 2ª geração de writers, com novas ambições, mentalidade e outro espírito nas ruas. Como foi enfrentar essa transição?
Sim, podemos dizer que apareceram a 2ª e 3ª geração durante esse período, no geral essas gerações seguiam o nosso exemplo sem quererem admitir que nós os inspirávamos, era competitivo, mas eu e o meu crew sempre fomos respeitados, e logo percebemos que só teria piada se partilhássemos a cidade e os spots, as leis e fronteiras foram-se demarcando naturalmente.

Com isto tudo nascem duas crews que mudaram o game do graffiti português. Silver Kids e The Railers. 
Fala-nos um pouco sobre as crews.
O meu crew anterior, FDPBC, estava a dispersar em relação ao graff, éramos mais que um crew de graff, éramos uma clique de crews de vários bairros lisboetas, estávamos muito envolvidos com a scene de Hip Hop em Lisboa, que também estava em boom nessa altura. Para me dedicar mais á minha vertente do hip hop, fundei os crews SK e TR, não com writers de renome (o que teria sido fácil), mas sim com pessoas que estavam a começar e que queriam muito pintar. Os dois crews acabaram por se fundir, devido á amizade entre os membros dos dois crews, em que eu era o único elemento em comum.

Uma crew é construída na base da amizade, é o código principal. Para além da amizade, existia algum objectivo como crew, tipo dominar a cidade?
Sim, o objectivo de SKTR, era ganhar fama,  conquistar e dominar a cidade, já o tinha feito com o meu tag SEA e imaginei essa fama multiplicada por todos os membros do meu crew.

Quem eram as crews activas na altura, quem rivalizava convosco na luta pelos spots?
Crews na altura, Gvs, Dsa, Cia. Mais tarde, Dcs, 1003 Pv, Ds, Tsk, 2S3D, Fya, etc...
Tudo bons rapazes. 

No meio de todos esses crews existiam guerras, como funcionava nesse tempo?
A guerra de spots é inevitável no graff, todos os crews têm o desafio de se orientar, as regras e exceções mudam de caso para caso. Pontualmente há acções e atitudes que são faltas de respeito ou provocações, quando direcionadas ás pessoas erradas, podem dar em infindáveis guerras.

No principio do ano 2000, tal como hoje em dia, essas questões eram resolvidas com crosses e caças ao homem, é um bocado ridículo, mas quando estamos nessas situações essas são as primeiras reações, e só a experiência nos mostra que não é a melhor solução.
 
Tu não estiveste ligado apenas ao graffiti, andaste de skate e também és rapper.
Queres compartilhar?
Andei de Skate noite e dia durante 5 anos, era tão dedicado ao Skate como fui depois ao Graffiti, toda a iconografia e arte gráfica na cultura skater, inspirou-me muito para mais tarde me envolver no graff.

Sempre desenhei muito no papel, a ouvir música, e fazia pausas para escrever rimas, alguns rappers amigos convidaram-me para rappar mais, pois curtiam as rimas , porém nunca foi minha intenção ser um MC e sempre me apliquei mais na minha vertente do hip hop, o Graffiti. 

Filthy e D´outros tipos, duas relíquias no graff luso. 
Qual foi o objectivo de ambas?
A FILTHY era um sonho meu de fazer uma revista de graffiti, que promovesse e motivasse o writer português, o seu estilo e progresso. Consegui fazer 2 números em fanzine, mas por estarmos em Portugal o seu formato revista nunca viu a luz do dia por falta de apoios.

Como já é um clássico no graffiti, o inter-rail continua a ser quase como um must do de todos os writers, mas neste caso é diferente, pois o que queremos saber é, como foi no teu tempo?
Os nossos interails foram mais para inspiração do que para atingir spots, deixávamos que o que víamos nos inspirasse, para depois aplicarmos no nosso país, era muito divertido e não era apenas com a paranoia do graff.
De qualquer maneira voltava as minhas cidades preferidas para pintar com amigos locais.

Quem foram os primeiros a pintar o metro e comboios em portugal?
Eu sei mas não me acuso, mas tanto um como o outro são PRM.

Como vês o graffiti de hoje?
Parece me ser mais do mesmo, apenas com tags diferentes, francamente esperava mais inovação e qualidade no graffiti em 2013, especialmente no bombing. As acções entretem-me, mas a qualidade e originalidade não impressionam muito. O pessoal no meu tempo punha estilo nos bombings, era um must. Por outro lado acredito que os bombers de hoje em dia são muito persistentes e ultrapassaram muitas dificuldades que eu sabia que iriam estar no caminho quando parei.

Qual achas que foi o teu maior feito no graffiti português, algo que te marcou a ti e ficou para sempre na história? 
Vou-me gabar um bocadinho de atingir spots pela primeira vez mais o meu crew, hahaha, inaugurei muitos spots, quase nenhum desses spots é virgem, eu atingi-os primeiro. E acreditem, sempre que lá chegava já ia preparado, não desperdiçava missões, nem fodia spots.

A tua ausência ainda se faz sentir quando se fala dos grandes anos dourados. Sentes vontade de voltar?
Um pouco como a minha carreira de rapper, prefiro estar quieto a fazer coisinhas mínimas. Gostava de voltar se tivesse tempo e motivação para ser all city king outra vez, o meu legado está aí, quem viu e viveu sabe que foi tudo pelo progresso do graff português.

Estás ligado ao que se passa hoje em dia? 
Sim, a maioria dos meus amigos ainda são writers.

Música de acção do teu tempo?
90s Rap, de a Tribe Called Quest a Wu Tang Clan.

Um grande conselho aos que ainda cá estão do teu tempo, e aos que foram aparecendo com o andar da carruagem?
Os old school estão a pintar muito bem, e francamente estou impressionado com os trabalhos actuais do Nomen, Eith, Ram, Creyz, Risko, Vhils, etc...

O new school também está a fazer o seu trabalho, estudem a história do graff nacional e internacional, e tenho a certeza que vão perceber em que parte da história desta grande arte vocês estão, e exatamente o que deveriam estar a fazer. Style e inovação é a chave neste jogo, cada nova peça deveria ser pra impressionar e muito quem a vê, mediocre no meu tempo era toy.

Props?
Peace ao meu crew, paz também ao graffiti português e ao hip hop tuga e crioulo. 
Obrigado a todos pelo respeito com que me tratam, one love. 

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