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FEV'14
Feat. Eko
Writers Bench #12
A cultura Hip Hop deu vida a várias formas de arte, como o B-boy, o Dj, o Mc e claro o Graffiti.
Desta vez vamos falar de um writer que esta ligado à cultura. 
Eko, dos poucos writers que representa o graffiti, como pertencente à cultura Hip Hop. Conhecido pelas suas peças Wild Style, com escalas fora do comum. Agora em terras distantes e quentes, mas sempre a representar graffiti Português.


Como começou a longa caminhada, nesta cultura?
Esta longa caminhada começa em 1997, ali na Venda-Nova , fui contaminado pelo Dose, que sem dúvida foi o grande responsável pelo meu início no graff, depois tive outros writers dali que me deram um bom back up e muito knowledge ao longo de vários anos. Foi importante e é importante ter um mentor para nos direccionar e transmitir valores.

Quanto tempo tem Eko e como chegaste a esse mesmo tag?
O EKO , surge em 1999, tive alguns tags nesses primeiros dois anos, o normal de quem começa e querer explorar o que não conhece, mas o  Eko surge na junção de várias letras, depois fui eliminando algumas e ficou Eko, achei que podia dar resultado e comecei a explorar mais essas letras.

Sem dúvida q foi o tag que chegou a todos e fez com que fosses conhecido na altura.
É possível, na altura havia a febre do bombing, tags nos autocarros, apanhavas um bus em qualquer lado e vias só tags, havia guerras de tags dentro dos bus, tinhas o teu spot ali dentro e os outros writers sabiam disso, lembro me na altura uma revista mencionar que os bus de benfica faziam lembrar NY, aquilo estava tudo destruído, havia muitas crews ,  writers por todo o lado, criou-se em Benfica um spot que era o "Ponto", onde paravam writers de todos os lados da cidade, conseguias estar ali ao fim da tarde com 20 writers. Vivias as cenas de outra maneira.

Já vens de uma altura chamada "golden age", como era o graff nessa altura?
Nessa altura tudo estava a rebentar ao mesmo tempo, muitos Writers e crews, e atrás disso tinhas várias estilos e maneiras de pintar e agir, era uma descoberta, acho que mesmo a nível nacional começou a circular mais informação, mais revistas mais latas, tinhas acesso a mais coisas, tinhas a Big Punch que tinha latas e revistas, a Tribal ( e mais umas ), tinhas também por volta de 2000 a Open Mind no Colombo, foi um marco, essa loja juntou as vertentes do Hip-Hop ali a porta. Foi memorável o que ali aconteceu.

Que achas do graff nos tempos de hoje?
As pessoas estão ofuscadas, estão confundidas com os Writers que se tornaram artistas e dizem que fazem graffiti, e com writers que fazem graffiti e se acham artistas. Há falta de conhecimento de quem faz e quem avalia, é evidente. Há espaço para tudo, cabe aos intervenientes assumirem o que fazem e não prejudicarem os outros, quem não sabe tem que saber o que vê, a informação que chega a quem está de fora tem de ser real, não pode ser distorcida. Cada um no seu lugar a fazer o que faz. Eu faço graffiti.
 
O que te motivava mais nos bons tempos que passaste?
Não havia facebook, não havia plataformas online para pores o que fazias , as coisas eram processadas de outra maneira, tinha writers comigo e andávamos juntos, íamos aos sítios que conhecíamos ver graff, eu ia para casa do Rote, do Tim ou do Jota desenhar, ver fotos, planeávamos as coisas, havia outra motivação, andavas muito tempo para conhecer os writers, era diferente, a internet por um lado encurtou distâncias mas por outro aumentou. Tinhas os teus álbuns de fotos que mostravas e partilhavas aquilo, isso dava motivação, havia picardia saudável.    
 
Quem eram as grandes influências?
Tinha os Writers do meu bairro naquela altura o Dose, Seux, Rot, Art e mais tarde o Jota que me influenciou bastante, conheci o Tim em 99 e tivemos um percurso interessante durante vários anos, todos eles me influenciaram directamente por estarmos mais próximos, o Rot deixou-me aquele bichinho dentro de mim, aquela vontade de não parar de fazer sempre mais melhor e maior.
 
 Hoje em dia tu ainda cá andas e muito já foram, existe alguma razão?
 Pinto porque gosto, não o faço com interesse de obter ou ganhar alguma coisa, faço porque me dá prazer pintar.  

A cultura Hip Hop está sempre presente, explica-nos esse motivo?
Desde cedo comecei a ouvir rap Português, e sempre liguei o graff ao rap, por fazerem parte do mesmo movimento, da mesma cultura, sempre os vi ligados, um writer tem que transmitir uma mensagem, essa mensagem pode ser a do Mc, uma rima que aches que faz sentido mostrar a quem não houve rap, há sempre alguém que vê aquilo e fica a pensar, da mesma maneira que um Mc pode falar de ti num som tu podes "falar" de um Mc num Graff.
Está tudo ligado.

Achas que a cultura esta perdida em Portugal?
Perdida não digo, mas desfragmentada sim. Cada um faz por si. Não há entreajuda, e se a há não é muito notória.
 
Achas que os nossos "pais" fizeram mal o trabalho, na passagem do testemunho?
Não, acho que o trabalho foi bem feito, quem agarrou nesse trabalho é que não teve capacidade de dar continuidade, procuraram notoriedade demais e trabalho de menos, muita parra e pouca uva, acho que a determinada altura os objectivos mudaram, deixou-se de dar valor ao que se fazia e deu-se mais valor ao que se podia ganhar. Isso deformou o Graff. Mas como tudo, há pessoas que o fazem porque gostam de o fazer, e há pessoas que gostam do que ganham fazendo-o.
 
Estas mais na onda do Hall of fame, mas a representar de uma forma que poucos em Portugal tem estofo, é um objectivo/amor pela cena, ou mais alguma coisa?
O meu objectivo é pintar com amor, acima de tudo gosto do que faço, a maneira como o faço é a maneira que me dá prazer e que me identifico, procuro o graff dentro do graff. Nada mais. 

Como defines o teu estilo, hoje em dia?
Cada um tem as suas influências, quem disser o contrário está a mentir, mas eu trabalho para fazer algo que seja meu, para que quem me vê de fora mesmo que não decifre saiba que é meu. O meu estilo é meu. Tenho essa noção, acho que não me estou a elevar demais. Procuro em mim o que tenho e aplico no que faço, tento aperfeiçoar as minhas técnicas e linhas. Exploro as minhas capacidades.

Sabemos que estás fora em Moçambique, como é a situação do Graff aí?
O Graff aqui é quase uma miragem, só existe um writer aqui, o Shot-B, boa pessoa com vontade de aprender e de fazer mais, só que não há mais nada, logo tudo se torna mais difícil porque não há referências, não há trabalho feito.
A evolução de qualquer writer aqui é muito mais lenta. Espero estar a contribuir de alguma forma para motivar o Shot-B e outros que queiram começar.
 
Achas que pode vir a tornar-se num país com bons writers, após a tua passagem por ai?
Espero que sim, mas as dificuldades aqui são muitas e a vários níveis, por vezes não há condições para comprar latas e pintar, espero que com o desenvolvimento sócio-cultural que estamos a assistir haja possibilidade de desenvolver varias áreas na cultura, e uma delas claro o Graffiti.   

Em Portugal quem achas que esta a elevar o game?
O Chure e o Myster estão a surgir com letras D'outros tipos. Atsok, evolução em pessoa. Bray, pinturas do outro mundo, Mosaik, estilo demarcado e Odeith, o ilusionista. Cada um tem a sua maneira de pintar, mas sei que todos eles partilham o mesmo sentimento, o gosto e o divertimento cada vez que pintam. é isso que faz com que na minha opinião se destaquem. Atenção que isto não são prémios, é a minha opinião. 
 
 
Real Graffiti vs Sellout, qual a tua opinião?
Real Graffiti são letras, sellout é deixares de ser tu próprio e fazeres coisas que não são graffiti e chamares graffiti para vender. Vender o teu trabalho não é ser sellout, nem te tornas vendido por comprarem o que fazes.

Que mudavas no Graff Português?
Se acabasse com a net mais de metade dos writers morriam. O Graff está na rua. 

Planos para o futuro?
Pintar até poder.

Palavras finais.
"Ás vezes oiço uma voz dentro de mim e conforme os anos passam sou mais e mais assim" - D-Mars

Props. 
A quem esteve sempre do meu lado, principalmente nestes últimos dois anos, que nunca me deixaram e sempre acreditaram em mim. Não preciso dizer nomes, falo com vocês diariamente.
Obrigado, sempre juntos. Respect!

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